sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

10 Metas brasilianas para qualquer que seja o ano novo: ser mais simples e natural

1. Expandir o sentimento do “fim de semana-feriado-férias” para os “dias de trabalho”.
Por que o brasileiro gasta tanto tempo fazendo o que não gosta e que pouco transforma e traz benefícios?  Como tudo o que vive, os brasileiros também morrem em dias que não se pode prever.
Para recompensar os dias de trabalho duro, se dá de recompensa qualquer coisa que queira, pouco considerando os efeitos das suas escolhas nos outros e no seu ambiente. As consequências são difusas, mas enormes, desde curtir um som vibrando carros e toda vizinhança ao redor, até se entulhar, e entulhar seus lixos, em praias e shopping centers. 
Geralmente, os métodos da farra-diversão-entretenimento do merecido triângulo “férias-feriado-fim de semana” trazem pouco benefícios coletivos e muitos “pagam o pato” dos excessos, incluindo graves ameaças ao ambiente natural. Toda a situação se  agrava pois o trabalho dos dias úteis não é tão bem sucedido e eficiente porque é realizado às pressas e sem motivação. O mais comum é já chegar no trabalho cansado e esperar ansiosamente para ir embora, descansar. 
Cada um dos milhões de trabalhadores, deste recém-intitulado Brasil, trabalham sem saber o porquê, mantêm estruturas que não sabem de quem, vestem camisas que não sabem origens, abraçam causas que não acreditam, giram o movimento “das coisas” como se fossem necessárias, eternas, e imutáveis. E assim o fazem para ter segurança. Mas, não parece falsa essa segurança? Primeiro, porque parece falso qualquer benefício ou posse que seja individual ou particular. Na hora que chega a famigerada “necessidade”, nenhum dinheiro pagará pela incompetência generalizada que se instala nesse “mecanismo das coisas”. Segundo, porque se investe muito frente ao que se tem em retorno.
 Para um senso real de benefícios é necessário confiança. Essa já está extremamente comprometida na sua base justamente pela descrença sobre a capacidade e a eficiência das peças do sistema. Por exemplo, em um acidente ou ataque cardíaco, que retratam cenários mais graves de necessidade, haverão muitas peças envolvidas para se a execução de um bom socorro. Peças que vão da disponibilidade e preparo e funcionamento da telefonia, da ambulância/helicóptero de resgaste, do motorista/piloto, dos socorristas, das enfermeiras à equipe médica, aos quais se espera toda qualidade. Ressalta-se ainda que para tudo se conta com a fluência e a qualidade em termos de transporte (um bom brasileiro, com o típico humor irônico da dura experiência, deve estar a dar risada). No caso do vitimado ser “bem assegurado”, posto pagamento e contrato com “o melhor” plano médico do mercado brasileiro, na melhor das combinações, ainda poderá ter por vir  o maior susto: a conta final do que o seguro não cobre. Mas, na maior parte dos casos mesmo, envolvendo trabalhadores de mesma dedicação (por vezes, até maior em tempo) a incerteza residirá já no nível da compreensão da localidade já do atendente, piorada se tiver em fronteira de munícipios, se o SAMU realmente vai chegar a tempo, e se tiver equipe trabalhando naquele certo momento no hospital público.
Afora as experiências diretas de riscos a integridade física, as descrenças e desconfianças sobre cada uma das peças envolvidas no cada atender às necessidades do brasileiro, controversamente, asseguram outras formas de riscos. Mas aprofundar nisso só faz é ter muito mais coisa pra se pensar do que já se tem. Então, “peloAmor”! Para aliviar tanta opressão diária, o brasileiro se dá de presente o tão esperado “fim de semana-feriado-férias-aposentadoria”. Só assim pode sobreviver nessa rotina de insegurança e estresse...
Tudo o que se torna mais desejado será o alívio, a anestesia que repercute para seguir os dias úteis. No alívio, então, sim, se poderá fazer o que sempre se quis. Só nesses dias não úteis, a vida parece ser boa.
Mas, onde está a alma desses milhões de trabalhadores nos dias úteis? Onde residirá o desejo genuíno de se realizar aquele trabalho, um bom trabalho, que tem o verdadeiro potencial de impulsionar transformação social? Está manifesto apenas artificialmente nas reclamações de todo-santo-dia ou virtualmente, no desabafo por facebook?
Então, o trabalho, que supostamente “realiza o homem”, continua sinônimo de escravidão no Brasil. A escravidão do século XXI tem um formato elaborado, quase imperceptível, pois condicionado - tal qual um cão amarrado num graveto.
O rebelde foi morto por seus iguais, avarentos de posses, prêmios, condecorações e insígnias a serem emitidos pelas inúmeras Mesas da Consciência e Ordens. E agora, neste século, quando surgem, se é que surgem, os revoltosos automaticamente se excluem ou são excluídos de forma sutil. Esse “louco”, que vê as engrenagens e observa atônito para onde escorre o suprassumo dos benefícios do trabalho coletivo, torna-se incompatível, não tem como misturar por sua natureza distinta. É água e óleo. A alma sempre manterá sua natureza, pode o corpo fazer o contrário. O que há de humano em todos reside calado. O que há de “louco” em todos, é o que dificulta no levantar para ir trabalhar. Os rebeldes não podem ser zumbis, que sem alma, sem amor e motivação, executam atividades “por obrigação” em um circuito de tanto desperdício, impactos e benefícios elitizados.
 Pode ser que seja melhor não fazer nada.
 
2. Fazer somente o que se gosta e preenche.
A vida é o mais urgente. Viver estressado e desestimulado, “reclamão” de tudo e de todos é justamente o oposto de “viver”. Todos os milhares de “brasileiros reclamões” assim o são, pois todos os dias levam à morte os seus potenciais humanos verdadeiros, criativos e livres. Não há culpados de fora, o agente que força cotidianamente o incabível de “caber” na própria alma é o seu próprio dono (supostamente após 1888). Um cão condicionado a corrente ainda pode ser capaz de observar o seu entorno e se tornar capaz de perceber que pode sair correndo, pois agora está simplesmente amarrado ao um graveto.
Viver infeliz para agradar/enriquecer a alguém ou a um sistema desconhecido, de objetivos duvidosos, é morrer no graveto.
 O que promovem de verdadeiro os milhões de trabalhadores-zumbis que se locomovem diariamente na capital paulista, por exemplo? As capitais fedem, há lixo e bagunça pra todo o lado, nada é planejado e as consequências negativas do modelo econômico-social se agravam. Parece tudo feio, cinza e poluído mesmo na promovida capital mais rica do Brasil. Há desigualdades crônicas, desânimo e ineficiência em todos os seus milhares de departamentos.
Como seria isso possível? Por que é assim, se milhares e milhares de trabalhadores acordam diariamente para lá exercerem suas atividades úteis? Fazem o que com todo o seu potencial posto em movimento? Todo o conhecimento e entendimento atual tem sido posto em prática no que é coletivo? O que impede?
Talvez o alívio seja forte demais e o retorno para casa faz sempre o lar ser doce, e o mundo lá fora ser amargo. Mas a casa está no mundo. Então, tudo amarga.
 
3. Expandir o conceito do “cuidado familiar” para o entorno.
A família e a moral são pilares das ações do brasileiro. Mas de certa forma, podem estar impedindo que o conhecimento e a vontade humana virem práticas que tragam benefícios ao coletivo. Parece que estão todos muito preocupados com o “meu”, a “minha família”, como se essa pequena esfera fosse possível de estar destacada e isolada, como se fosse mais exclusiva e mais importante na comparação às demais.
É verdade que se pode dormir confortavelmente quando se sabe que os entes queridos estão bem e seguros. Mas lá fora, entes queridos de outros estão com muitos problemas, incluindo os elementos da natureza. A moral atribuirá a eles as explicações por causas e consequências daqui ou do além, que permitirão certo relaxamento por um esquecimento parcial ou completo.
 Mas os impactos difusos advindos da “segurança” e dos benefícios exclusivos ao particular somam-se e causam chagas sociais e ambientais crônicas. E tudo que é coletivo fica a cargo do setor público governamental, e com razão-relativa, já que recebem tamanhas “bênçãos” pelos mais altos impostos do mundo, sofridamente pagos pelos brasileiros (a dinheiro, crédito e alma). Tamanho custos associados as necessidades básicas e ainda mais para garantir a contribuição ao sistema público, passa a ser aliviado na “não-ação democrática”, no alheamento político, justificando em explicações que não parecem de responsabilidade pessoal: é “graças à santa ignorância do povo” e ao “Estado ausente e corrupto”. E quem faz o povo? E quem faz o Estado?
Assim, a lógica operante no Brasil séculos após séculos pode seguir operante, com a utilização da estrutura e dos recursos públicos para o privado e particular, determinando situações de riscos e desconfortos para milhões de vidas.
 Mas todos os tomadores de decisão parecem estar tão longe e inacessíveis: “lá em Brasília”, “lá na prefeitura”, “lá na diretoria”, “lá na gerênciaaa” (ecos)... Mas as consequências se traduzem bem, bem, perto: no estresse, na robotização humana, nos “sapos engolidos”, nas filas e filas intermináveis arranjadas em qualquer que seja o lugar, na burocracia macunaímica, nos engarrafamentos quilométricos, na comida-plástico envenenada e sem variedade, nos morros em erosão, nas pilhas de lixo, na perda de tudo o que é nativo e natural, no ar denso e fétido, nas águas poluídas e estancadas. Veias bloqueadas e morte bruta.
Os trabalhadores-zumbis se dão então, como única liberdade, a firmeza em se manterem alheios a si mesmos, de não seguir o pedido profundo de fazer conforme o seu coração coletivo - que quer bem ao todo. Deixam-se levar na inércia de um sistema estabelecido, mas viciado, dizendo “fazer o que?”, “foi sempre assim”, “tem que acostumar”, “você vai acostumar, senão...”, “todo mundo faz”, “o que vão dizer”, “não tem como ser diferente”.
Assassino, coveiro e morto se tornam um mesmo.  In memorian: aqui jaz mais um. Fez-se morto. Um a um: muitos mortos. Uma sociedade inteira: morta, sem vitalidade no coração familiar e coletivo.
 

4. Olhar para além de si.
Expandindo a visão do coração individual, de cada brasileiro, a todo o mundo a rodopiar nas linhas de atrações do universo, relativizado ainda mais usando a escala do tempo sem mesmo ter que ir aos 4,6 bilhões de anos atrás, da origem da Terra, basta só tentar lembrar coisas passadas: qual é mesmo a importância daquilo que traz rugas?
Tão vaidosos o povo brasileiro que é, como se permite tantas rugas de preocupação? Poderiam ser ainda mais belos se quisessem menos e se desenvolvessem olhos para se contentar e melhorar aquilo que é natural, próprio, local.
A beleza particular, tão rotineiramente exercitada e preparada, não poderia expandir às ruas, praças, calçadas, jardins, muros, edifícios, condomínios, favelas e rios? Sendo verdadeiramente arrumados e belos, os brasileiros fariam do Brasil um país arrumado e belo, fora do particular, antes de matraquear sobre higiene pessoal de cidadãos que muitas vezes fazem uma gestão coletiva muito avançada, dos catadores de recicláveis ao francês! Não há como ignorar a realidade e oferecer belezas artificiais. Dura pouco e custa muito, para si e para o entorno. Seria possível atrelar cuidados e beleza pessoal com cuidados e beleza social e ambiental? Buscando produtos que sejam de qualidade para si e para o mundo todo, os melhores do mercado também no tratamento dos recursos naturais e das pessoas. Qual é o critério das escolhas? Bom preço pra quem? Por que tem bom preço?
Verdadeiramente belo, seria ver os brasileiros com maquiagem, tinturas, esmalte, perfumes e brilhos em sintonia com o natural. Feito, utilizado e degradado em proporções que só faz bem.
Mas até o momento, há um micro reinado dentro das casas, um palácio com reis que mal observam o muro afora e, quando o faz, faz na sobre um trono mais elevado, reclamando e pouco transformando. O “tudo de bom e do melhor” não precisa refletir muros a fora. A beleza ardentemente desejada torna-se impossível e aprisiona como um graveto faz ao cão condicionado.
E para o mundo a fora, os brasileiros parecem mesmo que só fazem é fechar os olhos enfeitados com brilhantes e rímel – maquiagens que dão gastos e desgostos e que acobertam um coração empoeirado.
Combinar a beleza de si com a coletiva pode resgatar verdadeiras belezas. E a todo o tempo, no cotidiano e nas férias, os brasileiros poderão passar na realidade de outro alguém e começar a compreender o quanto o outro e a natureza são mais necessários e trazem mais segurança.
 
5. Parar para ver.
É possível ver detalhes no movimento das coisas? Passar certo tempo no quieto, no cotidiano que envolve dias úteis e não úteis, poderá revelar os maiores enganos em níveis pessoais e sociais e como se relacionam (se retroalimentam). Para um bom brasileiro, ficar quieto ou não fazer nada é quase uma afronta, podendo ser entendida até como ofensa.
Quem se sente agredido quando se busca quietude ou romper com movimentos que pouco traz de bom? Talvez o maior incomodado seja o próprio. A polícia de si mesmo é por vezes mais dura e intolerante que a de fora.
Será que de fato há algum desagrado que realmente não permita que o brasileiro pare com o que não tá legal, seja lá com o que for?   Qual é o critério para o desagrado, em uma sociedade com padrões viciados em grilhões invisíveis?
Pão na mesa”, “conta em dia”, “a melhor educação para os filhos”, “qualidade de vida digna”, justificam mesmo a perda da liberdade, do amor, da criatividade e da realização pessoal-coletiva? O que realmente alimenta pais e filhos? Nunca há de faltar para quem compartilha e expõe o maior do seu potencial como ser humano coletivo. Nem mesmo um milionário pode existir sozinho. Sem nada, aliás, quer tudo. Mas os seus melhores vinhos vêm das melhores terras, próprias para certa espécie, tipo e qualidade, fatores compreendidos apenas pelos melhores e mais competentes produtores. Que não são seus, e nem se “fosse”, seriam.
Talvez seja melhor não se levantar para trabalhar se for pra ter sozinho e se sentir sozinho, especialmente se o trabalho contradiz sonhos. A capacidade de ver se refina no repouso, e da forma como se quiser fazê-lo. Nesse repouso, será possível reconhecer os sonhos de mundo que preenchem o coração.
A quietude e o parar podem parecer um pesadelo, especialmente quando o que tem de melhor parece ser “festas e vantagens” ou um simples “encontrar amigos”. Parar um pouco pode permitir perceber que não é por chatice, moral ou beatice, mas porque se nota por si próprio o tempo e o esforço necessários para recuperar os danos de uma festa, de uma vantagem – se forem recuperáveis - ou da improdutividade prática da maior parte dos encontros.
Parar não é ficar doente, e pode até representar a ação que mais capaz de produzir. E produzir aquilo que é mais inédito ou esperado, e que parecem que só seriam possíveis no futuro ou na revelação da morte. O parar seria para ver e buscar aquilo que se quer, sem adiar por obrigações que manipulam e podam sonhos. Autenticidade e naturalidades próprias seriam expressas, sem necessidade mais de se manter aquela imagem do brasileiro arrogante de músculos e poses esculpidas, fechado para o mundo, mas exibido em vitrines de exposição, enganando o mundo com belezas que não suas. Romper-se-ia o ciclo da mesmice festa após festa, jogo após jogo, notícia após notícia, sessão após sessão, político após político, chefe após chefe, dia após dia...
Então, o Brasil seria mesmo um país diverso e multicultural, belo sem necessidade de imitar padrões que não possuem porquês, que são sem pra quês, sem razões. Seria de fato, bem sucedido e coletivamente rico.
Um “eu-feliz” não existe sem “você-feliz”, sem um “todo-feliz”.
 
6. Mesclar o sucesso pessoal com o sucesso coletivo.
É comum no começo de um ano novo fazer a listinha do que fica e do que deve ser desfeito. Então, na lista do que se deve abrir mão em cada novo ano (e até mesmo de se recusar) deve entrar livros, receitas, filmes, propagandas, santinhos que ensinem a “crescer” e a “progredir” sozinhos, na vantagem ou menosprezo dos outros, incluindo o ambiente natural. Investir em ações de objetivos desconhecidos e até mesmo deixar dinheiro na poupança rendendo faz de cada um cúmplice do enriquecimento de poucos e da degradação sócio ambiental. É preciso mesclar o pessoal com o coletivo. Investir sabendo em que, poupar e gastar, comprar, “crescer” sabendo como.
 Considerando a dimensão da matéria, do tempo e do espaço, nem sequer chegamos a existir... Aqui tudo é emprestado e tudo será devolvido.
Então, também é prudente levar para a cooperativa de reciclagem e deixar de adquirir livros, seriados, remédios e psicólogos da linha autoajuda. Podem parecer úteis em um primeiro momento, mas o mais útil e apropriado é reconhecer que há razões autênticas para não se sentir bem. Não se sentir bem, vem do vazio de não seguir o próprio coração. E na organização da sociedade e da economia atual, de crise verdadeira, a depressão não é pessoal. É grupal.
Tão forte é a crise atual que as metas deste texto podem mesmo soar inúteis, inocentes, sonhadoras e fracas, se no melhor dos casos, não forem reduzidas a uma crítica ou ataque a alguém, a um grupo. Justamente, é nessa demasiada auto-importância que reside o descompasso. Tudo que é pessoal é coletivo. Então, há sim razões verdadeiras para se sentir na fossa, para entristecer. Há muitos julgamentos, comparações e idealização do que se deve ser, no nível pessoal e coletivo. Torna-se irônica tamanha distância, isolamento, apatia e descuido social e ambiental nesta sociedade da comunicação, autopromovida como a mais avançada da história da humanidade (comparado com...?).
Das fossas pode sair o melhor adubo.
A tristeza não deve ser vista como doença. Doente está o sistema atual, que tira do ser humano aquilo que lhe garante humanidade: o húmus, a terra mesmo. No Brasil é ainda mais grave, pois a pequena agricultura foi associada com miséria e o espaço rural foi preenchido pelas atividades do agrobusiness, sendo poucos os produtores que descem dos seus motorizados e pisam no barro, nadam nos rios, amam na biodiversidade, observam chuvas e estrelas.
Logo, distantes do que provê a vida de forma direta, só podemos ficar tristes. Sem pé na água limpa, sem pé na terra boa, sem mãos apanhando frutos vivos. Só pé nos saltos altos, só pé no piso frio, só mãos pagando por frutos mortos. Não há como abruptamente se tornar “embalável e descartável”. O que se tem de mais verdadeiro na humanidade está completamente ligado à natureza, que só ensina, pelo exemplo, a dividir: dos átomos permutáveis a tantas relações ecológicas, sem qualquer razão que teoria humana possa encaixar.
 
7. Cultivar a terra, mesmo que em pequenos vasos.
Cultivar a terra com plantas ornamentais, medicinais ou comestíveis, mesmo que em pequenos vasos, pode ser uma grande, e das mais importantes atividades do dia-a-dia. Sendo gentil e olhando a necessidade de uma planta pode-se entender o quanto “tanta coisa é falsa”. As respostas das amigas verdejantes são rápidas e uma amizade indescritível surge como retorno. Com as plantas, não cabe miséria, nem de espírito, nem de matéria. E coletando o sol, podem distribuir mais do que acumular.
A miséria é artificialmente criada, como uma obra de engenharia ou arquitetura, quando uma aparente abundância só se encontra disponível para poucos. Mas no retorno a terra, instrumentalização com as novas ferramentas da criatividade e da motivação profunda, o pobre torna-se o rico e o rico torna-se o pobre - e considerando a verdade do espaço-tempo, tais termos e estados nem sequer existem.
 
8. Aprender mais, sem estudar ou comprar qualquer coisa ou método.
Parece que os brasileiros estão sabendo menos e tendo menos curiosidade sobre as coisas. Como meta para novos anos, poderia incluir o abrir espaço para aprender algo novo ou melhorar não só naquilo que sempre se quis saber, fazer ou entender. Para tal aprendizado, só será necessário atenção, sem professores especiais, virá com o que estiver mais prontamente disponível: independente da espécie, de títulos, idade, profissões, classes, experiência profissional, instituição de origem – já não essas as maquiagens mais falsas e mais amplamente usadas no Brasil?
Caminhar e olhar profundo no olho de tudo que vive é uma dádiva de paz contra qualquer aflição e egoísmo. O dom de viver não é exclusivo e não cabe querer viver de forma exclusiva nos espaços comuns, e por isso deve considerar, inclusive, a diversidade de espécies naturais.
O Brasil como maior consumidor de agrotóxicos do mundo demonstra grande índole biofóbica, quando era esperado o oposto, sendo multidiverso, multicultural, tropical. Mas maquiadamente belos e saudáveis, os brasileiros se permitem consumir por todas as vias de contato (boca, nariz, pele) litros e litros de venenos e produtos químicos de ação desconhecida a cada ano velho. Vai acumulando para as necessidades futuras, que sejam em longínquos anos vindouros!
Não seria mais sensato, buscar entender que uma pessoa, um brasileiro, não é Rei? Qualquer um que exista, não tem como fugir, divide o reino da Vida com muitos e inúmeros seres. Além do que a posição de Rei requer reinado e oprimidos. Bastaria entender que todos que vivem têm o mesmo direito à vida – independente de certo julgamento que pode entender como repulsivo, embora seja incapaz de reproduzir tamanha engenharia biológica, qualquer que seja. O melhor para todos, seria conciliar e promover estratégias de convívio e paz, muito possíveis na elaboração criativa e na análise. Tornar-se-ia um aprendizado com divertimento e benefícios comuns garantidos.
Fobias, neuroses, indignações, raivas contra outros seres viventes poderiam ser direcionados para analisar e resolver os fatores que causam desequilíbrios ecológicos responsáveis por algo que se destaca como negativo. Seriam sentimentos autênticos e transformadores.
Olhar no gérmen de tudo o que vive traz paz e serenidade e revela de imediato, possibilidades para a convivência. Nascendo sorrisos comuns.
 
9. Focar no que é confortável e natural em si mesmo.
Na dúvida quando no exercício para cumprir essas metas de todo ano, que é novo a cada dia, só olhe para a sua serenidade. O que traz paz jamais pode vir de modelos externos, do padrão dos outros e de comparações. Cada um tem um potencial e uma combinação própria que ninguém pode compreender e muito menos poderá julgar como certo ou errado. Não é tão brasileira a fala: “macaco senta no rabo e olha o dos outros”? Não há a quem agradar, sem agradar e estar em paz consigo, nos principais campos que ocupam no dia-a-dia, como do trabalho e do lazer.
Melhor seria ser mais leve que moralista. O brasileiro sabe, mas esquece, de onde vêm as raízes da sua moralidade, notadamente improdutiva – basta observar as notícias dos jornais. Por isso é importante ficar atento e vigilante o tempo todo, e passo a passo será natural trocar a televisão, falso-profetas e pontos no placar-do-sucesso-pessoal por outras necessidades. Talvez baste apenas brincar de inventar pela casa, pelo jardim, pela rua (pondo em ação a 8° meta), com quem quiser e estiver presente. Atividades próprias certamente seriam bem melhores, mais saudáveis e produtivas do que o adormecer do lúdico e do criativo que parece podar pelo padrão pais, filhos, amigos, vizinhos, todo um país. Aos poucos meios práticos de transformar a casa, a rua, a comunidade, o bairro, a cidade e o país podem aparecer.
A medida do confortável natural é natural, porque princípio é alegre e pacífico. Quem prega o desvio da natureza humana para o bélico é porque novamente usa o público para o benefício particular e quer sufocar o potencial que tem em todos os corações por ainda se achar Rei.
O desvio da alegria e da paz natural pode ser usado, inclusive, como indicador, um sinal de um desequilíbrio social e ambiental. Então, se faz necessário parar para ver (5° meta) e para poder dar início as melhores estratégias que possam evitar o que causa esse desequilíbrio – pode até implicar em certo conflito e insegurança no começo, mas haveria uma base sempre leve e pacífica. Tal conflito e insegurança são normais, pois maus hábitos e vícios pessoais e sociais estão enraizados. Poderá parecer demais para um cão condicionado, que ele estava o tempo todo preso em um graveto, quando era suposto que o colocasse em algo que o prenda mais substancialmente. Ele mesmo quase quer se amarrar em algo melhor.
Aos poucos os conflitos e incertezas passam, pois o benefício transcende o pessoal e será percebido no coletivo. Cores retornam e ninguém morrerá de fome, ninguém cairá no descrédito – muito pelo contrário: pessoas e seres que se movem com um coração coletivo inspiram aos demais!
Ninguém poderia cobrar trabalho, contas e impostos indevidos – o poder de tornar legal o que é ilegal e de corromper em benefício particular o que é público não se manteria em nenhum nível.  As soluções criativo-coletivas se intensificariam e passo a passo a liberdade seria resgatada. Seriam os brasileiros capazes de entender que tudo é emprestado, e pior, que no espaço-tempo o particular nem sequer existe? O que é o dinheiro e o consumo tão desenfreado a custos da exploração de pessoas e da natureza seriam reconhecidos como a maior das ilusões. Que prende um cão acorrentado ficticiamente a um graveto.
Livre, a lógica é a do viver, fazer acontecer aqui e agora! É no exercício da criatividade que uma pessoa se realiza. E nisso sim, cada um é exclusivo e possui potencial único, próprio e irreprodutível. Tais quais linhas das digitais. Com a expressão real do caráter criativo de um ser vivente, o trabalho no Brasil deixaria de ser escravo, quiçá ainda no século XXI.
Qualquer dúvida é só olhar o coração: está leve? Está alegre? Está simples? Sendo sociais e naturais, o coração bate em um ritmo tranquilo.
 
10. Simplificar.
Melhor abrir mão também, junto com todo o exagero e a reclamação, tudo o que preocupa. Só remanescerá aquilo que é de responsabilidade própria, que tem base no amor, que por si traz a necessidade de um esforço legítimo, mas que não atormenta, porque é próprio e natural.
Seja com um filho, uma família, uma comunidade, uma empresa, um país, uma peça, um livro, um artesanato, uma obra, uma safra, uma nova economia, é melhor ser responsável pelas próprias crenças de ética do que seguir a lógica confusa e vantagista de outros que, inclusive, em nome da justiça, ética, sustentabilidade, sociedade (e até de Deus!) só faz piorar...
Mas o certo é simples, e é fácil reconhecer a direção dos impactos. O certo não compactua com o erro, o coração e a paz não deixam. Não se mescla: é água e óleo. “Viu ou ouviu algum esquema suspeito?”, então diga confiante: “Tchau e benção! Fui!”. E assim, o brasileiro não venderiam mais o seu trabalho para algo ou alguém cujos recursos e objetivos fossem duvidosos. Isso no espectro de todas as profissões existentes, todas igualmente importantes socialmente.
Não servindo mais ao sistema corrupto, os trabalhadores sedentos de si mesmos, parariam o Brasil. E o obrigariam a Ver e a se Reformular, em uma maior escala de planejamento de país, de ações públicas. Porque é fato que nunca houve uma transformação social e econômica no Brasil para o que é próprio e necessário. Modelos após modelos político-econômicos foram todos ume o mesmo, uma sequência, desde o “descobrimento”.
Simplificando na autenticidade de si mesmo, do seu natural, os brasileiros poderiam realmente fazer diferente nos próximos anos, com ou sem Copa do Mundo, com ou sem eleição. Surgidos em sua síntese própria, depois de tantos danos históricos, estariam animados e dispostos a mover os sonhos remanescentes de dentro pra fora, do pequeno para o mundo, de um para o outro (de mim pra você, de você para o outro) e a fazer somente o que traz benefício, alegria e paz direta, aqui e agora.
10 metas para Mudar o país no ano que todo dia se inicia
1) Expandir o sentimento do “fim de semana/ feriado/ férias” para os “dias de trabalho”.
2) Fazer somente o que se gosta e preenche.
3) Expandir o conceito do “cuidado familiar” para o entorno.
4) Olhar ao redor.
5) Parar para ver.
6) Mesclar o sucesso pessoal com o sucesso coletivo.
7) Cultivar a terra, mesmo que em pequenos vasos.
8) Aprender mais, sem estudar ou comprar qualquer coisa ou método.
9) Focar no que é confortável e natural em si mesmo.
10) Simplificar.
 



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Os novos "ossos e conchas" aos pés das árvores

A “Natureza”, pelo papel de ciclagem de seus componentes microbiológicos e vegetativos, é vista como um grande recipiente, passível de assimilar os resíduos humanos das mais diversas origens. De fato, na história evolutiva humana os materiais “descartados” eram “biodegradáveis”, os mais difíceis de serem assimilados e dispersos naturalmente eram ossos, conchas, pedaços de metal, barro queimado, sendo os sambaquis e os sítios arqueológicos redutos incríveis para o detalhamento das atividades humanas pré-históricas. Quantas coisas os “lixos” contam!
Mas indo além da antropologia, áreas como essas dos sambaquis também permitem reforçar a ideia de uma relação bastante direta, embora sutil já que permeia e define grande parte da conduta estabelecida pelo homem e seu meio ambiente. Trata-se do estabelecido como concreto, imutável e infinito, para além da sua visão como recurso passível de uso direto: a Natureza “naturalmente” é capaz de ciclar todos os resíduos antrópicos! Pode a Ciência berrar, gritar aos quatro cantos do mundo (em inglês ou chinês!), sobre a durabilidade de certos materiais, os longos períodos para os decaimentos de toxicidade, entre outros atributos preocupantes dos “resíduos nossos de cada dia”... Ainda assim, pouco é feito para conter os efeitos do descarte desses materiais na velocidade de produção alucinante do modelo econômico contemporâneo, escolhido inconsciente pela maioria dos habitantes do planeta em suas ações e confortos diários: de pacotes de isopor com plástico filme embalando cenouras orgânicas raladas, passando por um simples pedido de fast food em pacotes dentro de pacotes, até as trocas de celulares, computadores, automóveis a cada modelito novo do "I Posso".
Nesse ritmo, não cabe nem o tempo de pôr na conta quanto tempo a mais até se atingir o insuportável – e também porque é uma dificuldade real como mensurar o que é disperso e subjetivo. Para mim, por exemplo, a cidade de São Paulo é intragável (basta uma simples busca pelas pesquisas do Prof. Paulo Sadiva - USP, ou abrir as “Windows” paulistanas, para saber o quão insalubre são os ares dessa cidade). Mas, para que abrir o tempo dessa conta e do olhar atencioso para o que tem que ser (re)feito se a “Natureza dá conta”?
Sempre têm que haver desafios para as “futuras gerações”. Eu não tive o rio limpo perto de casa para contemplar e brincar nesta vida (não tive esse mérito ainda e nem quero tê-lo só para mim). Sou brasileira, mas sem os recursos naturais e culturais da diversidade mais que anunciada desse meu país: sou de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Então, eu fui estudar biologia, quase como uma filosofia de vida, para ter maior possibilidade de resgatar cenários anteriores, ao que queria encontrar, ao que acredito ser para maior qualidade de vida e felicidade de todos, não era bem aquele que encontrei ali na minha cidade natal, e não é uma questão dos recursos diretos dados por meus pais, como muitos imediatamente podem remeter. É Além. É uma afetação direta, por exemplo, no fundo do meu coração que se espreme toda vez que passo ou penso nos rios urbanos, nos serviços ambientais que já não dão conta...
Para mim, com toda a certeza vale mais optar por produtos biodegradáveis, muitas vezes bem mais caros, fazer um tropé para segurar a água da máquina de lavar roupas para usar depois, tomar banho em cima de um balde para recuperar a água do banho para a descarga, entre outras criações pouco confortáveis, do que assistir consequências tamanhas como que anestesiada ou cheia de apatia. Nós vamos das nanodimensões ao Espaço, mas a inércia tecnológica ainda mistura água potável com dejetos. Meu compromisso é tentar fazer diferente e uma forma será apontando por trabalhos de pesquisa e aplicações por onde a “Natureza” já escreveu. Ela dá conta mesmo há muitos anos. Mas não no ritmo da ganância e do individualismo. Mesmo nesse campo de busca científicas de soluções, achamos que podemos escrever linhas novas e convencer todo o mundo. Na verdade, na escala econômica e da pesquisa convencional, o interesse é vender a receita redigida e inserir o “natural” na mesma conta.
Mas ainda antes de pensar soluções, esbarramos naquele pensamento, também "natural”, que o ser humano possui de que a “Natureza dá conta”: afinal, “qual é a crise verdadeira, se a natureza sempre reciclou? Por que faria diferente agora? Tudo bem jogar o resíduo da Corte Real rua abaixo até Rio Tietê em Santana do Parnaíba ou Pirapora do Bom Jesus ou, simplesmente, dar uma descarga morando em cidades que possuem menos que o mínimo de tratamento de esgotos – é justificável! Eu sempre inconformada por entender, tratei de explicar por esse viés e aliviar a grande tristeza de ver cidades inteiras sujas e poluídas: ainda é “natural” para muitos jogar sacos plásticos aluminados, latas e garrafas no “chão”, “pela janela”, deixar entulhos nas beiras dos rios ou em pés de árvores, tal como eram os ossos e as conchas nos sambaquis. Não é diferente a ideia por detrás. Qual seria a ideia do meu vizinho quando ele joga entulho no pé da árvore que meu avô plantou? Com que ideia empresários de indústrias químicas, até as mais eminentes do Brasil e do mundo, empilham e enterram toneladas de produtos tóxicos, ou liberam seus efluentes rios e matas e comunidades abaixo? Sim... é porque a “Natureza” limpa! Está no nosso corpo primitivo, em nosso imprints como seres naturais, sabemos sem racionalizar que a “Natureza” é a “Mãe-Natureza”, compassiva, curativa. É essa relação que mesmo hoje remanesce em diversos corações individuais, perdidos no caos urbano (e que se manifesta de várias formas, no engajamento religioso, em ONGs, em movimentos de contracultura, ou até mesmo se afundando em depressões profundas e autoagressões – mesmo o suicídio pode ser visto como o explícito da crise social). E também remanesce em alguns grupos e culturas mais avançados, já que reconhecem a interdependência, a necessidade do zelo e da responsabilidade pessoal e coletiva para manter a provisão de todo o necessário (água, alimentos, ar e relações humanas de qualidade). O trabalho insano das comunidades urbanas contemporâneas não fazem mais para prover água, alimentos e ar de qualidade nem para si, nem para os seus próximos. Para onde se esvaem os trabalhos das caóticas cidades, produtoras intelectuais de números e letras, quando consomem vastos recursos bons (pelo menos ainda aceitáveis para a manutenção da vida, caso ainda estejamos saudáveis pelo menos fisicamente) e em troca lançam toneladas de resíduos nos solos, nas águas e nos ares?
Aonde é o “lá fora” de se jogar? O que se joga ainda tem em si a mesma relação que estava no “jogar fora” dos ossos e das conchas. Só que mudamos os recheios e as embalagens e o aviso à inércia evolutiva humana não foi dado. A quantidade que essa humanidade gera de "materiais descartáveis" ocorre na mesma velocidade da absorção e dispersão naturais? Em que Era o ser humano estagnou para não ver que as relações homem-natureza mais primitivas já não podem ser mais mantidas? Já não são “ossos e conchas” e já não somos grupos de homens morando em vilas distantes.
O solucionar não se limita no escrever de uma linha enquanto o “Insert” está ativado e vamos apagando tudo o que já tinha sido escrito. Pesquisas em remediação de áreas contaminadas convencionais, ou mesmo as de atenuação natural, biorremediação, fitorremediação me parecem ser um tanto como escrever assim, apagando o que já acontece e o que já é responsável pelo mínimo da qualidade ambiental que temos.  Um exercício é imaginar o estrago que seria sem as ações diárias físico-químicas e biológicas em andamento naturais nesse planeta. São os espíritos protetores da Terra, vestidos também de sol, ventos e chuvas, bactérias, fungos, mixomicetos, plantas das mais diversas formas e tamanhos!
 Mas é necessário remediar com todas as frentes tecnológicas possíveis, não é essa a questão, obviamente, façamos o melhor, com todas as ferramentas disponíveis, para reduzir as consequências nagativas socioambientais do presente modelo economico. Sem esquecer que prevenir vêm antes de tudo! O bizarro é ver no cenário da remediação de áreas contaminadas o faturamento de tantos e tantos bilhões (e muitas vezes dos cofres públicos!), então, sendo assim, até "compensa" poluir nesta conta bizarra. Até "rende" ter a cidades poluídas e também os seus cidadãos usarão mais remédios também. Nas áreas de pesquisa nem sempre é o pesquisador que ativa o “Insert” (como é irritante quando ativa num esbarrão!), mas há casos em que o próprio pesquisador, que representa a sua empresa ou instituição, ao escrever a linha da solução vai apagando outras muito melhores (e pra não deixar rastros, consciente ou não, ainda derrama muita tinta – mesmo na escrita digital! Surreal!). Não há “casos”, é fato! No campo das patentes em fitorremediação, por exemplo, é a regra! Quem polui são os mesmos que patenteiam tecnologias de remediação – mesmo quando usam plantas! “Bom jeito” de se “ganhar” várias vezes em cima de um borrão. Mas é o pior jeito para as comunidades presentes e futuras, humanas e não humanas. Esse lado B das “soluções” de remediação nunca deveria existir se o ser humano, lucidamente, quisesse ser simples e integrado ao que realmente é sua característica: a convivência social em ambientes agradáveis. Primeiro, a humanidade está todos os dias se reunindo. Haja “reunião”! Não deve ser diferente no seu trabalho, na sua casa e até na meditação do seu quarto – não? Nunca vi ninguém reunido exatamente na bucólica beira do Rio Pinheiros. Exatamente na beira, em mesinhas e banquinhos da minha imaginação? Impossível... não daria! Já é admirável o ciclista que usa a ciclovia dessa marginal. Mas ali mesmo, apenas a alguns metros, milhares de pessoas estão reunidas, nas salas dos inúmeros prédios ao redor, com suas janelas de vidro e ar artificial (por alguns milhões, você também pode desfrutar desse luxo!).
A extração dos recursos naturais seguida da devolução das massas tóxicas residuais, que ocorrem em escalas desproporcionais, é a maior das ilusões do “ótimo econômico” ou das “grandes conquistas tecnológicas” destes dois últimos séculos. É a tradução do grande fracasso do “se situar no mundo”. Para mim, todos os Prêmios, Honras e Méritos, devem ser direcionados apenas para a “Natureza”, que na atuação silenciosa de seus microrganismos e plantas melhora, a todo instante, esse mundo. Acham soluções realmente tecnológicas para os digitadores ignorantes.  Esses componentes da natureza sim que são os “super-heróis”, que fazem a verdadeira Ciência, que promove a Vida e não se vangloria.
A cada nova mudança de rotas e procedimentos tecnológicos surgem novos resíduos com interações, durabilidade e toxicologia específicas e lá estarão: microrganismos e plantas se adequando, reconstruindo novas rotas fisiológicas, passando até mesmo como processo adaptativo pelas novas (e lamentáveis) condições antropicamente promovidas. Pode haver altas concentrações dos mais diversos contaminantes, a vida insistirá! Não há dificuldade para se conceituar Vida, que só é tudo aquilo que insiste e que dá, como resultado da sua teimosia, a ampliação da sua própria cadeia. Seres humanos continuam firmes e fortes porque a cadeia biológica escrita há muito é a regra. Gratidão à todas as formas de vida.
O rio passa, trazendo água, o homem a usa e a apodrece, ejetando toneladas e toneladas diárias de massas fétidas e tóxicas. Ainda assim o rio mantém sua beleza intrínseca e sua água se mantêm como tal. As ações naturais, físico-química e biológicas, vão purificando-a, recuperando-a em alguns quilômetros, em alguns anos, ou apenas quando Sampa "for alguma cidade submersa no mar”, e então os escafandritas virão procurar ossos e conchas, vestígios de uma antiga civilização.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Os pregos Santos sob o martelo de Thor: o encontro televisionado

Não é raro encontrar pessoas que julgam outras culturas que estão estruturadas em hierarquias e castas bem definidas, como as sociedades hindus. Não é o meu objetivo debater, muito menos defender, se o sistema de castas é correto ou não. Não cabe aos cidadãos ocidentais julgarem tais culturas dado que omitem nas suas próprias a mesma estrutura social, que talvez seja ainda pior em termos de desigualdade e desrespeito humano. O povo brasileiro neocapitalista é orgulhoso e estufa as plumas carnavalescas para dizer que sua cultura é muito rica. A sua pluma é colorida e cheia de detalhes áureos, mas o recheio (a massa principal) não tem beleza alguma e se esconde sob o silêncio e a pseudo “coexistência harmônica”. Só para exemplificar, eu atualmente trabalho em um local mais pra público do que privado (ou será o contrário?) que admite a coexistência de subempregos em total convívio com superempregos! Segundo Ignacy Sachs, a sobrevivência é muito diferente de desenvolvimento e a lógica dos subempregos é a lógica do pobre que não pode se dar ao luxo de não trabalhar mesmo que sob as piores e mais degradantes condições. Um profissional must aceitaria receber líquido menos que um salário mínimo? Sem benefícios, sem vínculo, sem respeito? Mas quem tira o pó, os resíduos e limpa os ambientes admite, e de “amostra grátis” ainda sofre outros tipos de repressões: “esse é dos empregos, o mais humilhante”, ouvi de uma Santos (“... e deixa eu sair daqui senão a minha supervisora vem e ó (estalinho de dedos)”.
É assim que se dá o encontro das classes no Brasil? O encontro é bastante televisionado quando é muito enérgico, dá-lhe martelada! E de encontro, passa a ser choque - o verdadeiro encontro das classes (marteladas até derrubam Pinheirinhos!). Por um Acaso, um milissegundo de um momento, pessoas que nunca se encontrariam passam a dividir a mesma história – em lados completamente opostos, mas igualmente duros no meu olhar. Nesses choques, as saídas à moda francesa mesclada ao jeitinho brasileiro faz tudo ficar superficial: estariam os Santos nas pistas? Estariam os deuses voando com o seu martelo Mercedes-Benz? Teriam os deuses ou os Santos diferentes direitos e deveres? Seria o público do
espetáculo a tosca “média classe” que no meio só polemiza? Então, eu que ignoro a maior parte das “demandas da mídia e do marketing” estou aqui escrevendo sobre isso. Mas o “isso” entenda-se, é isto: Desigualdade social brasileira estampada! Levantemos quantos são os atropelamentos fatais nas nossas vias, qual a porcentagem dos que minimamente se destacam na mídia? E dos que grandiosamente se destacam? Quanto maior for a distância econômica dos Deuses, maior será a cobertura. Aí sim, os encontros serão televisionados (abafem o caso do atropelamento diário nas relações humanas nos ambientes de trabalhos).
Eu não li nada sobre os detalhes de um recente caso de atropelamento envolvendo um Santos e um “Deus nórdico”, apenas vi algumas chamadas de capa num jornal e ouvi comentários de amigos do trabalho. Não assisto televisão mais, mas pressinto o que está se passando baseado na
reviravolta das chamadas dos jornais e nas opiniões desses amigos que revidaram a outras opiniões expostas em sites de relacionamentos (como me disse o anjo Raphael). Ignorar a mídia e não ignorar aqueles a minha volta têm me saído a melhor tática para manter a saúde psicológica e a minha humanidade.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PIB para quem, Cara Pálida?

Cacique chora, junto com o choro das árvores vai subir o mar... Belo monte atende exigências do IBAMA. Biodiversidade, sociedades tradicionais? Não podem manter o PIB “parado, mas sempre crescente”! Mortes continuam sendo encomendadas e o Faustão está sempre igual todos os domingos... Proezas do "Brazil" do Século XXI!
De que forma os órgãos governamentais representam a sociedade, conhecem sua realidade e elaboram programas para benefícios econômicos e socioambientais?
Com pesar tenho acompanhado as notícias das "nossas" decisões políticas, por isso e por outras razões eu anulei meu voto na decisão presidencial: Serra ou Dilma, pois a diferença estava no passado (e olhe lá!). Era também “democrática” aquela Animal Farm...
Quanta confusão no uso dos conceitos e dos termos e na definição dos compromissos em plena Era da Informação! Irônico desencontro. Não era no fim do mundo que estava previsto que a
humanidade falaria entre si e não mais se faria entender? Como se subitamente fossem falantes de línguas completamente diferentes?
Parece ser também um período retrógado em questão de tecnologia e desenvolvimento econômico, dada a qualidade do conhecimento científico e "social-antropológico" que temos, pelo menos nos acervos digitais e impressos, nos periódicos internacionais e nos raros projetos e mentes de “dissidentes”, “bichos-grilos”, “subversivos”... Nada disso ajudará se vivemos no imediatismo, reducionismo e inércia político-econômica. Vai dar trabalho viver por aqui nos próximos anos...
Se pouco lembramos das nossas próprias Vidas atuais e pouco sabemos dElas e sobre o "funcionamento das coisas", então como podemos viver tão inertes no mundo? Por que não
desconfiar que teremos outra vida em outra parte sob outras condições? Quem poderá saber se não estaremos ajudando nossos pais a se mudar da floresta que era Tudo para eles e ir para onde? Ou se não teremos que usar os bebedouros contra nematódeos desenvolvidos pela ONU para chupar água da terra? Ou andar quilômetros pra trazer um galão de óleo diesel cheio de água pra casa? Ou se não estaremos tomando um tiro por querer manter sua castanheira e toda a sua tradição familiar? Bem, poderemos ser também aquele que sem tradição vai ficar lutando
pra manter as finanças que "acha" que herdou, ignorando de onde veio o montante. Dinheiro que ajudou na "encomenda" para a retirada da vida de alguém - que é querido de outros e tem em si o mesmo direito de ter a vida! Assim, poderemos viver em nossos feudos que levam nome de árvores, de natureza, de reduto ecológicos e sonhos pré-industriais, para criar nossos filhos em bolha, alheio ao mesmo mundo que compartilhamos com todos os outros seres! É
estranho ignorar o pedido de qualquer criatura, quem quer que seja.
De criança chorei na noite em que vi na televisão as aves marinhas cheias de óleo lutando para sobreviver a um derramamento. Com os meus 15 anos radicais também chorei quando ouvi de uma outra criança como eu vociferar contra os projetos e campanhas que lutam pela vida silvestre na lógica de que é um desperdício de dinheiro e trabalho humano em uma sociedade que ainda tem miseráveis, pessoas passando fome. Chorei por não conseguir explicar que pensava eu que miseráveis e famintos fazem aqueles que distanciam o homem da natureza, da vida silvestre, limitando o acesso aos recursos por meio do “tratamento industrial” e das “relações de mercado”. Ela mandou em palavrões as tartarugas para o fim... e eu, chorei igual naquele dia sozinha no travesseiro.
Eu agora de bióloga (de carteirinha e tudo mesmo), vou virando paleontóloga...
Não acredito que o "Brasil está crescendo. O PIB nada é se não for para a qualidade direta da vida do seu povo! Alguns dedos das mãos estão longe de fazer o todo. E o todo não pode acreditar nisso, só porque esses dedos tem oratória e meios globais de se passarem por "iguais".
"Não se dormirá em camas (com lençóis)".

P.S.: Ah! E "Grilo é um ser imprestável para o Silêncio" (Manuel de Barros)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Todos nós Guarani-Kaiowás sob o código do descaso

Quem vive no Brasil já viu índios. Poderia lembrar-se de como os viu? Se afortunados e interessados por cultura deve ter os visto em bons documentários ou mesmo esteve direto com eles, em vivência (sem turismo convencional)... Mas talvez a maior parte dos brasileiros os tenha visto na periferia das cidades, na periferia dos seus dias de férias. Devem ter visto índios incrustados no pouco espaço que “lhes foi reservado” (vide Reserva Indígena do Jaraguá na cidade mais “desenvolvida” do Brasil!)

Índio não é preguiçoso. Índio tem valores das quais a razão convencional, das coisas valoradas em capital, não faz sentido. Não espere que os indígenas tomem armas e se situem na pseudo-sociedade como vendedores-empresários, credor-correntista, ruralistas-ambientalista... O mundo dicotomizado que roda a economia atual não é indigenista, nem tampouco de uma humanidade que realmente privilegie os valores comuns com altruísmo, agindo para o bem estar de todos os povos e criaturas da terra.

As alterações do código florestal brasileiro não deve ser posto ao debate dicotomizado entre ambiental versus social, pois não existe nenhuma das categorias por si. Toda sociedade depende de forma direta e indireta dos recursos naturais. Quem não se dirá “ambientalista” enquanto bebe água limpa, quando quer ar fresco e limpo pra respirar ou quando busca os melhores alimentos? É certo, por exemplo, que todos preferirão alimentos orgânicos agroecológicos, o preço é que limita. Mas os preços um dia poderão baixar, quando o mesmo, ou maior, apoio das políticas públicas e financeiro, já ofertado a agricultura e pecuária convencional, for direcionado à agricultura responsável pela saúde humana e ambiental. Aliás, quem precisaria de certificado não seriam aqueles produtores que intoxicam nossos alimentos e nosso ambiente? Aí sim, o Brasil será de fato um grande produtor de alimentos de qualidade (não só de biocombustível e ração para gado do exterior), e até a carne bovina sairá mais barata ao brasileiro. Mas enfim, logicamente pela sua violência direta, ainda é mais triste o descaso com a questão indígena atrelada à questão ambiental.

Sabemos que vivemos (e se calhar, governamos, sem esquecer: pró-público) no país mais rico em culturas antrópicas e em biodiversidade do mundo? Os jornais, nem fora do horário nobre, nem nas menores e escondidas colunas, informam sobre o que se passa com as comunidades indígenas. Quiçá, algo superficial será mencionado sobre os indígenas no dia 19 de abril e crianças robotizadas serão pintadas com o guache do esquecimento de toda a crueldade da colonização, ignorando a continuidade dos mecanismos em pleno século XXI! INCRA-lacrados.

Os jornais também não aprofundam sobre os impactos que advirão, e já advêm, com a reforma do código florestal de um texto Frankstein aprovado pelo Senado. Eles se atêm em certos aspectos desviando atenção para uma ou outra questão mais alarmante e calorosa e passam despercebidos às centenas de outras fagulhas que vão também por fogo (literalmente, nas nossas florestas!). É uma tática antiga: um chama atenção e o outro passa, foge, arma... É tipo o caso “PM na USP”, enquanto matam-se índios, seringueiros-professores...

Conhecemos a moldura da política brasileira, Marina Morena. Sabemos quem são os donos do Mar (e não tem Caymmi e Gil nessa poesia bruta...). A confusão está imperando pelo superficial, que é o novo cosmético da mídia. Já nem é mais lobo em pele de cordeiro. É um lobo transgênico com genes de cordeiro, ou vice versa – faz parte da falta de ética franksteniana mesmo. O fato é que em breve a sociedade será ainda mais privada de suas matas (que nem mais no papel mesmo serão previstas!) e se tornará ainda mais dependente da “água industrializada” do mercado, dos alimentos empobrecidos, intoxicados e de baixa diversidade, das indústrias químicas com seus “remédios” para o solo, para as “pragas” do desequilíbrio, de umidificadores, ventiladores e condicionadores de ar. Assim, maior ainda a demanda por mais energia suja das várias “belo monte” da falta de políticas às matrizes energéticas alternativas já desenvolvidas, só não incentivadas para a implantação!

Se sonha com um Brasil Europeu ou Norte-americano, frequentemente usado como referencia de desenvolvimento, é melhor ir morar lá. Voltar às suas origens e suas tradições. Só salientando que são os maiores produtores de lixo e contaminação do mundo! Bem, deixemos o Brasil ser pensado pelo Brasil, mas aquele Brasil nativo, local, incorruptível e ético (sim, ele existe!). Na Europa e EUA não há chuvas e rios tropicais, nem crianças que sabem nadar na natureza como ela é num dia de verão verdadeiro. “Nosso sol” é outro, nossos solos são outros. Não tem Cerrado, Caatinga, Amazônia, Mata Atlântica, Pampas por lá... Assim como também não tem mais povos indígenas...

Índios guarani-kaiowás, percebam como estamos todos juntos, suas angústias são também as de milhões de brasileiros que diariamente são enganados e violentados pelas correntes do “desenvolvimento” descomprometido. A violência empunhada por armas é certamente mais cruel e injusta, mas é a mesma que sorri comemorando “vitória” no privar o coletivo e o público, privar a todos nós do direito de ter os serviços permanentes das florestas garantidos, e para que entendamos bem: Florestas Nativas!

Porque "O menino me dá a mão":

Bola de Meia, Bola de Gude - Milton Nascimento

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão
Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão
E me fala de coisas bonitas
Que eu acredito
Que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade alegria e amor
Pois não posso
Não devo
Não quero viver como toda essa gente
Insiste em viver
E não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal
Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão
Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto fraqueja
Ele vem pra me dar a mão