A “Natureza”, pelo papel de ciclagem de seus componentes microbiológicos e vegetativos, é vista como um grande recipiente, passível de assimilar os resíduos humanos das mais diversas origens. De fato, na história evolutiva humana os materiais “descartados” eram “biodegradáveis”, os mais difíceis de serem assimilados e dispersos naturalmente eram ossos, conchas, pedaços de metal, barro queimado, sendo os sambaquis e os sítios arqueológicos redutos incríveis para o detalhamento das atividades humanas pré-históricas. Quantas coisas os “lixos” contam!
Mas indo além da antropologia, áreas como essas dos sambaquis também permitem reforçar a ideia de uma relação bastante direta, embora sutil já que permeia e define grande parte da conduta estabelecida pelo homem e seu meio ambiente. Trata-se do estabelecido como concreto, imutável e infinito, para além da sua visão como recurso passível de uso direto: a Natureza “naturalmente” é capaz de ciclar todos os resíduos antrópicos! Pode a Ciência berrar, gritar aos quatro cantos do mundo (em inglês ou chinês!), sobre a durabilidade de certos materiais, os longos períodos para os decaimentos de toxicidade, entre outros atributos preocupantes dos “resíduos nossos de cada dia”... Ainda assim, pouco é feito para conter os efeitos do descarte desses materiais na velocidade de produção alucinante do modelo econômico contemporâneo, escolhido inconsciente pela maioria dos habitantes do planeta em suas ações e confortos diários: de pacotes de isopor com plástico filme embalando cenouras orgânicas raladas, passando por um simples pedido de fast food em pacotes dentro de pacotes, até as trocas de celulares, computadores, automóveis a cada modelito novo do "I Posso".
Nesse ritmo, não cabe nem o tempo de pôr na conta quanto tempo a mais até se atingir o insuportável – e também porque é uma dificuldade real como mensurar o que é disperso e subjetivo. Para mim, por exemplo, a cidade de São Paulo é intragável (basta uma simples busca pelas pesquisas do Prof. Paulo Sadiva - USP, ou abrir as “Windows” paulistanas, para saber o quão insalubre são os ares dessa cidade). Mas, para que abrir o tempo dessa conta e do olhar atencioso para o que tem que ser (re)feito se a “Natureza dá conta”?
Sempre têm que haver desafios para as “futuras gerações”. Eu não tive o rio limpo perto de casa para contemplar e brincar nesta vida (não tive esse mérito ainda e nem quero tê-lo só para mim). Sou brasileira, mas sem os recursos naturais e culturais da diversidade mais que anunciada desse meu país: sou de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Então, eu fui estudar biologia, quase como uma filosofia de vida, para ter maior possibilidade de resgatar cenários anteriores, ao que queria encontrar, ao que acredito ser para maior qualidade de vida e felicidade de todos, não era bem aquele que encontrei ali na minha cidade natal, e não é uma questão dos recursos diretos dados por meus pais, como muitos imediatamente podem remeter. É Além. É uma afetação direta, por exemplo, no fundo do meu coração que se espreme toda vez que passo ou penso nos rios urbanos, nos serviços ambientais que já não dão conta...
Para mim, com toda a certeza vale mais optar por produtos biodegradáveis, muitas vezes bem mais caros, fazer um tropé para segurar a água da máquina de lavar roupas para usar depois, tomar banho em cima de um balde para recuperar a água do banho para a descarga, entre outras criações pouco confortáveis, do que assistir consequências tamanhas como que anestesiada ou cheia de apatia. Nós vamos das nanodimensões ao Espaço, mas a inércia tecnológica ainda mistura água potável com dejetos. Meu compromisso é tentar fazer diferente e uma forma será apontando por trabalhos de pesquisa e aplicações por onde a “Natureza” já escreveu. Ela dá conta mesmo há muitos anos. Mas não no ritmo da ganância e do individualismo. Mesmo nesse campo de busca científicas de soluções, achamos que podemos escrever linhas novas e convencer todo o mundo. Na verdade, na escala econômica e da pesquisa convencional, o interesse é vender a receita redigida e inserir o “natural” na mesma conta.
Mas ainda antes de pensar soluções, esbarramos naquele pensamento, também "natural”, que o ser humano possui de que a “Natureza dá conta”: afinal, “qual é a crise verdadeira, se a natureza sempre reciclou? Por que faria diferente agora? Tudo bem jogar o resíduo da Corte Real rua abaixo até Rio Tietê em Santana do Parnaíba ou Pirapora do Bom Jesus ou, simplesmente, dar uma descarga morando em cidades que possuem menos que o mínimo de tratamento de esgotos – é justificável! Eu sempre inconformada por entender, tratei de explicar por esse viés e aliviar a grande tristeza de ver cidades inteiras sujas e poluídas: ainda é “natural” para muitos jogar sacos plásticos aluminados, latas e garrafas no “chão”, “pela janela”, deixar entulhos nas beiras dos rios ou em pés de árvores, tal como eram os ossos e as conchas nos sambaquis. Não é diferente a ideia por detrás. Qual seria a ideia do meu vizinho quando ele joga entulho no pé da árvore que meu avô plantou? Com que ideia empresários de indústrias químicas, até as mais eminentes do Brasil e do mundo, empilham e enterram toneladas de produtos tóxicos, ou liberam seus efluentes rios e matas e comunidades abaixo? Sim... é porque a “Natureza” limpa! Está no nosso corpo primitivo, em nosso imprints como seres naturais, sabemos sem racionalizar que a “Natureza” é a “Mãe-Natureza”, compassiva, curativa. É essa relação que mesmo hoje remanesce em diversos corações individuais, perdidos no caos urbano (e que se manifesta de várias formas, no engajamento religioso, em ONGs, em movimentos de contracultura, ou até mesmo se afundando em depressões profundas e autoagressões – mesmo o suicídio pode ser visto como o explícito da crise social). E também remanesce em alguns grupos e culturas mais avançados, já que reconhecem a interdependência, a necessidade do zelo e da responsabilidade pessoal e coletiva para manter a provisão de todo o necessário (água, alimentos, ar e relações humanas de qualidade). O trabalho insano das comunidades urbanas contemporâneas não fazem mais para prover água, alimentos e ar de qualidade nem para si, nem para os seus próximos. Para onde se esvaem os trabalhos das caóticas cidades, produtoras intelectuais de números e letras, quando consomem vastos recursos bons (pelo menos ainda aceitáveis para a manutenção da vida, caso ainda estejamos saudáveis pelo menos fisicamente) e em troca lançam toneladas de resíduos nos solos, nas águas e nos ares?
Aonde é o “lá fora” de se jogar? O que se joga ainda tem em si a mesma relação que estava no “jogar fora” dos ossos e das conchas. Só que mudamos os recheios e as embalagens e o aviso à inércia evolutiva humana não foi dado. A quantidade que essa humanidade gera de "materiais descartáveis" ocorre na mesma velocidade da absorção e dispersão naturais? Em que Era o ser humano estagnou para não ver que as relações homem-natureza mais primitivas já não podem ser mais mantidas? Já não são “ossos e conchas” e já não somos grupos de homens morando em vilas distantes.
O solucionar não se limita no escrever de uma linha enquanto o “Insert” está ativado e vamos apagando tudo o que já tinha sido escrito. Pesquisas em remediação de áreas contaminadas convencionais, ou mesmo as de atenuação natural, biorremediação, fitorremediação me parecem ser um tanto como escrever assim, apagando o que já acontece e o que já é responsável pelo mínimo da qualidade ambiental que temos. Um exercício é imaginar o estrago que seria sem as ações diárias físico-químicas e biológicas em andamento naturais nesse planeta. São os espíritos protetores da Terra, vestidos também de sol, ventos e chuvas, bactérias, fungos, mixomicetos, plantas das mais diversas formas e tamanhos!
Mas é necessário remediar com todas as frentes tecnológicas possíveis, não é essa a questão, obviamente, façamos o melhor, com todas as ferramentas disponíveis, para reduzir as consequências nagativas socioambientais do presente modelo economico. Sem esquecer que prevenir vêm antes de tudo! O bizarro é ver no cenário da remediação de áreas contaminadas o faturamento de tantos e tantos bilhões (e muitas vezes dos cofres públicos!), então, sendo assim, até "compensa" poluir nesta conta bizarra. Até "rende" ter a cidades poluídas e também os seus cidadãos usarão mais remédios também. Nas áreas de pesquisa nem sempre é o pesquisador que ativa o “Insert” (como é irritante quando ativa num esbarrão!), mas há casos em que o próprio pesquisador, que representa a sua empresa ou instituição, ao escrever a linha da solução vai apagando outras muito melhores (e pra não deixar rastros, consciente ou não, ainda derrama muita tinta – mesmo na escrita digital! Surreal!). Não há “casos”, é fato! No campo das patentes em fitorremediação, por exemplo, é a regra! Quem polui são os mesmos que patenteiam tecnologias de remediação – mesmo quando usam plantas! “Bom jeito” de se “ganhar” várias vezes em cima de um borrão. Mas é o pior jeito para as comunidades presentes e futuras, humanas e não humanas. Esse lado B das “soluções” de remediação nunca deveria existir se o ser humano, lucidamente, quisesse ser simples e integrado ao que realmente é sua característica: a convivência social em ambientes agradáveis. Primeiro, a humanidade está todos os dias se reunindo. Haja “reunião”! Não deve ser diferente no seu trabalho, na sua casa e até na meditação do seu quarto – não? Nunca vi ninguém reunido exatamente na bucólica beira do Rio Pinheiros. Exatamente na beira, em mesinhas e banquinhos da minha imaginação? Impossível... não daria! Já é admirável o ciclista que usa a ciclovia dessa marginal. Mas ali mesmo, apenas a alguns metros, milhares de pessoas estão reunidas, nas salas dos inúmeros prédios ao redor, com suas janelas de vidro e ar artificial (por alguns milhões, você também pode desfrutar desse luxo!).
A extração dos recursos naturais seguida da devolução das massas tóxicas residuais, que ocorrem em escalas desproporcionais, é a maior das ilusões do “ótimo econômico” ou das “grandes conquistas tecnológicas” destes dois últimos séculos. É a tradução do grande fracasso do “se situar no mundo”. Para mim, todos os Prêmios, Honras e Méritos, devem ser direcionados apenas para a “Natureza”, que na atuação silenciosa de seus microrganismos e plantas melhora, a todo instante, esse mundo. Acham soluções realmente tecnológicas para os digitadores ignorantes. Esses componentes da natureza sim que são os “super-heróis”, que fazem a verdadeira Ciência, que promove a Vida e não se vangloria.
A cada nova mudança de rotas e procedimentos tecnológicos surgem novos resíduos com interações, durabilidade e toxicologia específicas e lá estarão: microrganismos e plantas se adequando, reconstruindo novas rotas fisiológicas, passando até mesmo como processo adaptativo pelas novas (e lamentáveis) condições antropicamente promovidas. Pode haver altas concentrações dos mais diversos contaminantes, a vida insistirá! Não há dificuldade para se conceituar Vida, que só é tudo aquilo que insiste e que dá, como resultado da sua teimosia, a ampliação da sua própria cadeia. Seres humanos continuam firmes e fortes porque a cadeia biológica escrita há muito é a regra. Gratidão à todas as formas de vida.
O rio passa, trazendo água, o homem a usa e a apodrece, ejetando toneladas e toneladas diárias de massas fétidas e tóxicas. Ainda assim o rio mantém sua beleza intrínseca e sua água se mantêm como tal. As ações naturais, físico-química e biológicas, vão purificando-a, recuperando-a em alguns quilômetros, em alguns anos, ou apenas quando Sampa "for alguma cidade submersa no mar”, e então os escafandritas virão procurar ossos e conchas, vestígios de uma antiga civilização.
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