sexta-feira, 23 de março de 2012

Os pregos Santos sob o martelo de Thor: o encontro televisionado

Não é raro encontrar pessoas que julgam outras culturas que estão estruturadas em hierarquias e castas bem definidas, como as sociedades hindus. Não é o meu objetivo debater, muito menos defender, se o sistema de castas é correto ou não. Não cabe aos cidadãos ocidentais julgarem tais culturas dado que omitem nas suas próprias a mesma estrutura social, que talvez seja ainda pior em termos de desigualdade e desrespeito humano. O povo brasileiro neocapitalista é orgulhoso e estufa as plumas carnavalescas para dizer que sua cultura é muito rica. A sua pluma é colorida e cheia de detalhes áureos, mas o recheio (a massa principal) não tem beleza alguma e se esconde sob o silêncio e a pseudo “coexistência harmônica”. Só para exemplificar, eu atualmente trabalho em um local mais pra público do que privado (ou será o contrário?) que admite a coexistência de subempregos em total convívio com superempregos! Segundo Ignacy Sachs, a sobrevivência é muito diferente de desenvolvimento e a lógica dos subempregos é a lógica do pobre que não pode se dar ao luxo de não trabalhar mesmo que sob as piores e mais degradantes condições. Um profissional must aceitaria receber líquido menos que um salário mínimo? Sem benefícios, sem vínculo, sem respeito? Mas quem tira o pó, os resíduos e limpa os ambientes admite, e de “amostra grátis” ainda sofre outros tipos de repressões: “esse é dos empregos, o mais humilhante”, ouvi de uma Santos (“... e deixa eu sair daqui senão a minha supervisora vem e ó (estalinho de dedos)”.
É assim que se dá o encontro das classes no Brasil? O encontro é bastante televisionado quando é muito enérgico, dá-lhe martelada! E de encontro, passa a ser choque - o verdadeiro encontro das classes (marteladas até derrubam Pinheirinhos!). Por um Acaso, um milissegundo de um momento, pessoas que nunca se encontrariam passam a dividir a mesma história – em lados completamente opostos, mas igualmente duros no meu olhar. Nesses choques, as saídas à moda francesa mesclada ao jeitinho brasileiro faz tudo ficar superficial: estariam os Santos nas pistas? Estariam os deuses voando com o seu martelo Mercedes-Benz? Teriam os deuses ou os Santos diferentes direitos e deveres? Seria o público do
espetáculo a tosca “média classe” que no meio só polemiza? Então, eu que ignoro a maior parte das “demandas da mídia e do marketing” estou aqui escrevendo sobre isso. Mas o “isso” entenda-se, é isto: Desigualdade social brasileira estampada! Levantemos quantos são os atropelamentos fatais nas nossas vias, qual a porcentagem dos que minimamente se destacam na mídia? E dos que grandiosamente se destacam? Quanto maior for a distância econômica dos Deuses, maior será a cobertura. Aí sim, os encontros serão televisionados (abafem o caso do atropelamento diário nas relações humanas nos ambientes de trabalhos).
Eu não li nada sobre os detalhes de um recente caso de atropelamento envolvendo um Santos e um “Deus nórdico”, apenas vi algumas chamadas de capa num jornal e ouvi comentários de amigos do trabalho. Não assisto televisão mais, mas pressinto o que está se passando baseado na
reviravolta das chamadas dos jornais e nas opiniões desses amigos que revidaram a outras opiniões expostas em sites de relacionamentos (como me disse o anjo Raphael). Ignorar a mídia e não ignorar aqueles a minha volta têm me saído a melhor tática para manter a saúde psicológica e a minha humanidade.

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