sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Todos nós Guarani-Kaiowás sob o código do descaso

Quem vive no Brasil já viu índios. Poderia lembrar-se de como os viu? Se afortunados e interessados por cultura deve ter os visto em bons documentários ou mesmo esteve direto com eles, em vivência (sem turismo convencional)... Mas talvez a maior parte dos brasileiros os tenha visto na periferia das cidades, na periferia dos seus dias de férias. Devem ter visto índios incrustados no pouco espaço que “lhes foi reservado” (vide Reserva Indígena do Jaraguá na cidade mais “desenvolvida” do Brasil!)

Índio não é preguiçoso. Índio tem valores das quais a razão convencional, das coisas valoradas em capital, não faz sentido. Não espere que os indígenas tomem armas e se situem na pseudo-sociedade como vendedores-empresários, credor-correntista, ruralistas-ambientalista... O mundo dicotomizado que roda a economia atual não é indigenista, nem tampouco de uma humanidade que realmente privilegie os valores comuns com altruísmo, agindo para o bem estar de todos os povos e criaturas da terra.

As alterações do código florestal brasileiro não deve ser posto ao debate dicotomizado entre ambiental versus social, pois não existe nenhuma das categorias por si. Toda sociedade depende de forma direta e indireta dos recursos naturais. Quem não se dirá “ambientalista” enquanto bebe água limpa, quando quer ar fresco e limpo pra respirar ou quando busca os melhores alimentos? É certo, por exemplo, que todos preferirão alimentos orgânicos agroecológicos, o preço é que limita. Mas os preços um dia poderão baixar, quando o mesmo, ou maior, apoio das políticas públicas e financeiro, já ofertado a agricultura e pecuária convencional, for direcionado à agricultura responsável pela saúde humana e ambiental. Aliás, quem precisaria de certificado não seriam aqueles produtores que intoxicam nossos alimentos e nosso ambiente? Aí sim, o Brasil será de fato um grande produtor de alimentos de qualidade (não só de biocombustível e ração para gado do exterior), e até a carne bovina sairá mais barata ao brasileiro. Mas enfim, logicamente pela sua violência direta, ainda é mais triste o descaso com a questão indígena atrelada à questão ambiental.

Sabemos que vivemos (e se calhar, governamos, sem esquecer: pró-público) no país mais rico em culturas antrópicas e em biodiversidade do mundo? Os jornais, nem fora do horário nobre, nem nas menores e escondidas colunas, informam sobre o que se passa com as comunidades indígenas. Quiçá, algo superficial será mencionado sobre os indígenas no dia 19 de abril e crianças robotizadas serão pintadas com o guache do esquecimento de toda a crueldade da colonização, ignorando a continuidade dos mecanismos em pleno século XXI! INCRA-lacrados.

Os jornais também não aprofundam sobre os impactos que advirão, e já advêm, com a reforma do código florestal de um texto Frankstein aprovado pelo Senado. Eles se atêm em certos aspectos desviando atenção para uma ou outra questão mais alarmante e calorosa e passam despercebidos às centenas de outras fagulhas que vão também por fogo (literalmente, nas nossas florestas!). É uma tática antiga: um chama atenção e o outro passa, foge, arma... É tipo o caso “PM na USP”, enquanto matam-se índios, seringueiros-professores...

Conhecemos a moldura da política brasileira, Marina Morena. Sabemos quem são os donos do Mar (e não tem Caymmi e Gil nessa poesia bruta...). A confusão está imperando pelo superficial, que é o novo cosmético da mídia. Já nem é mais lobo em pele de cordeiro. É um lobo transgênico com genes de cordeiro, ou vice versa – faz parte da falta de ética franksteniana mesmo. O fato é que em breve a sociedade será ainda mais privada de suas matas (que nem mais no papel mesmo serão previstas!) e se tornará ainda mais dependente da “água industrializada” do mercado, dos alimentos empobrecidos, intoxicados e de baixa diversidade, das indústrias químicas com seus “remédios” para o solo, para as “pragas” do desequilíbrio, de umidificadores, ventiladores e condicionadores de ar. Assim, maior ainda a demanda por mais energia suja das várias “belo monte” da falta de políticas às matrizes energéticas alternativas já desenvolvidas, só não incentivadas para a implantação!

Se sonha com um Brasil Europeu ou Norte-americano, frequentemente usado como referencia de desenvolvimento, é melhor ir morar lá. Voltar às suas origens e suas tradições. Só salientando que são os maiores produtores de lixo e contaminação do mundo! Bem, deixemos o Brasil ser pensado pelo Brasil, mas aquele Brasil nativo, local, incorruptível e ético (sim, ele existe!). Na Europa e EUA não há chuvas e rios tropicais, nem crianças que sabem nadar na natureza como ela é num dia de verão verdadeiro. “Nosso sol” é outro, nossos solos são outros. Não tem Cerrado, Caatinga, Amazônia, Mata Atlântica, Pampas por lá... Assim como também não tem mais povos indígenas...

Índios guarani-kaiowás, percebam como estamos todos juntos, suas angústias são também as de milhões de brasileiros que diariamente são enganados e violentados pelas correntes do “desenvolvimento” descomprometido. A violência empunhada por armas é certamente mais cruel e injusta, mas é a mesma que sorri comemorando “vitória” no privar o coletivo e o público, privar a todos nós do direito de ter os serviços permanentes das florestas garantidos, e para que entendamos bem: Florestas Nativas!

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